Era verão, ela
caminhava na praia, o sol estava nascendo deixando o mar alaranjado.
A areia branca sob seus pés estava fria ainda. Era um dia diferente,
apreciando as ondas, depois retornaria para sua vida urbana, andando
por entre os imensos arranha-céus. Ela caminhou por cerca de 15
minutos até chegar ao fim da areia e começarem os rochedos aonde as
ondas quebravam. Foi saltando de uma pedra à outra, até que subiu
em uma das pedras mais altas, aonde as ondas não à atingiam, apenas
refrescantes respingos das ondas tocavam sua pele.
O céu estava cada vez
mais claro, mas o sol ainda não podia ser visto, ela havia acordado
bem cedo justamente para vê-lo nascer. Seus olhos estavam fixos nas
ondas quebrando abaixo dela, e de repente, uma voz à tira de seus
pensamentos distantes:
- Posso me juntar a
você? - Era ele. Ele não estava com ela desde sua infância, quando
chegou não causou muito impacto, mas depois de certos eventos ele se
tornou uma parte do seu dia a dia.
-
Claro, fique à vontade.
Ele
se sentou ao lado dela, apoiando-se sobre seus cotovelos e observando
o céu. Ela olhou para ele por alguns instantes, ele estava reclinado
e seu olhar fixo no imenso azul-escuro do céu que começava a ficar
mais claro. Era intrigante como eles eram diferentes, ela como o mar,
vezes calmo, vezes agitado, mas sempre ali, naquele mesmo ciclo,
singelo e envolvente. Ele por sua vez era como o céu, a sensação
de imensidão e liberdade eram o que o atraia, sempre parecendo
distante e calmo, mas quando se conhece um pouco melhor, pode-se
prever quando uma tempestade está por vir. Nesse pensamento
aprofundado se passou algum tempo, até que ela se deu conta que o
estava encarando, ela se sentiu um pouco constrangida e voltou sua
atenção para as ondas. Então ele começou a falar:
-
Não costumo te encontrar aqui sempre... Você só vem para cá
quando algo está te incomodando... O que foi?
- Só estou um pouco
perdida nos meus pensamentos... Você vai mesmo embora? Sabe que
podia ficar mais, não é?
-
Sim, sei... Mas acho que vai ser melhor assim... Não há muito mais
que eu possa fazer nesse lugar... Ficar mais apenas faria com que a
separação depois fosse mais difícil...
- Eu
sei... Mas não queria que acabasse dessa forma... Eu gosto da sua
companhia...
- Também gosto de
estar aqui... Mas sabendo que em breve terei que ir, permanecer aqui
só vai dificultar as coisas para mim... - Ele deixou de olhar para o
alto, ajeitou-se com uma perna esticada sobre a pedra e a outra,
flexionada, servia de apoio para o seu braço – Sua companhia
também me faz muito bem... Mas também faz com que me apegue ainda
mais a esse lugar... Querer desbravar esse mar... Mas isso não posso
fazer...
- Nem tudo precisa de
0 ou 1, sim ou não, preto ou branco... As coisas mudam com o tempo,
lugares, pessoas, sentimentos, opiniões, tudo muda... E foi você
que me disse isso uma vez...
- Realmente eu
disse... Mas o mar nunca vai aceitar um filho do céu... E um filho
do céu não pode ficar muito tempo em um lugar... Senão ele vai
querer fazer seu ninho ali... Mas o mar não vai deixar, as ondas
virão e destruirão o ninho, não importa o que o filho do céu
queira...
O sol despontava no
horizonte, mas nenhum dos dois estavam prestando atenção. Se alguém
olhasse de longe, veria apenas duas silhuetas contrastando a luz
vinda do sol ao fundo.
- É mesmo tão ruim
continuar aqui mesmo sem construir seu ninho?
- … - Ele olhou para
ela com os olhos brilhando, e um sorriso frágil, não era comum
vê-lo daquela forma – Eu preciso encontrar o meu lugar... Um lugar
aonde eu possa me fixar, depois de voar o dia todo, um ninho para
repousar, um lugar para onde eu possa voltar depois de um dia
cansativo... - Ele piscou algumas vezes para afastar as lágrimas que
enchiam seus olhos.
- … - Ela se sentiu
deslocada com aquela cena. Quando ela tomou ar para falar alguma
coisa, ele a interrompeu prontamente.
- E eu não sou o
único correto? Todos queremos um lugar para chamarmos de lar... - E
mesmo que eu saia daqui, ainda cruzaremos nosso caminhos, temos muito
o que compartilhar ainda... E um dia quero que voe comigo... Vou te
mostrar às belezas do céu... E qualquer dia você também tem que
me mostrar os segredos do mar...
- Sim, é claro...
Nesse meio tempo o sol
já estava longe do mar, e o céu antes escuro estava cada vez mais
claro. Ele deu um sorriso de “vai ficar tudo bem” e acariciou a
cabeça dela. Ele se levantou e aproximou-se dela, ela permanecia
sentada observando o que ele faria. Ele então se ajoelhou atrás
dela e a abraçou, as costas dela tocavam o peito dele, era
aconchegante, e por um momento ela fechou os olhos para se concentrar
nos outros sentidos... OLFATO, o perfume dele se misturava com o sal
do mar, se confundindo no seu nariz. TATO, seus braços à envolviam
na altura do tronco, era gosto, passava sensação de proteção, sua
pele quentinha tocando a dela. AUDIÇÃO, apenas um leve murmurio
incompreensível, quase que hipnotizante. Ao fim dum longo abraço
ele se levantou, botou as mãos nos ombros dela e disse:
- Ei... - Ela
prontamente ela olhou pra cima. Seu rosto fazia uma sutil sombra –
Nos vemos por ai...
Dito isso ele beijou-a
na testa, se virou e foi embora, pulando de pedra em pedra até ela
perdê-lo de vista. No fim, ela estava novamente sozinha, como estava
no inicio do dia, ainda mais confusa do que mais cedo, mas agora uma
sensação quente estava em seu peito, as palavras dele apesar de
confusa e metafóricas, ecoavam pela sua cabeça. Ela abraçou os
joelhos e ficou ali, perdida em pensamentos, sem saber bem o que
viria à seguir, rezando para estar preparada quando chegasse...
MENSAGEM: Não importa
a quanto tempo uma pessoa entrou na sua vida, não importa se ela vai
embora agora ou vai continuar com você pra sempre. O que realmente
importa é o quão bem essa pessoa te fez, se ela te fez ser uma
pessoa melhor, se ela te deu novos horizontes e perspectivas, se ela
fez isso, cada momento valeu à pena... Valorize pessoas e
experiencias, curta cada momento bom, para que no fim do dia, você
possa olhar para tudo que fez e sentir-se realizado e satisfeito.


