segunda-feira, 25 de abril de 2016

Um conto à beira-mar

Era verão, ela caminhava na praia, o sol estava nascendo deixando o mar alaranjado. A areia branca sob seus pés estava fria ainda. Era um dia diferente, apreciando as ondas, depois retornaria para sua vida urbana, andando por entre os imensos arranha-céus. Ela caminhou por cerca de 15 minutos até chegar ao fim da areia e começarem os rochedos aonde as ondas quebravam. Foi saltando de uma pedra à outra, até que subiu em uma das pedras mais altas, aonde as ondas não à atingiam, apenas refrescantes respingos das ondas tocavam sua pele.

O céu estava cada vez mais claro, mas o sol ainda não podia ser visto, ela havia acordado bem cedo justamente para vê-lo nascer. Seus olhos estavam fixos nas ondas quebrando abaixo dela, e de repente, uma voz à tira de seus pensamentos distantes:

- Posso me juntar a você? - Era ele. Ele não estava com ela desde sua infância, quando chegou não causou muito impacto, mas depois de certos eventos ele se tornou uma parte do seu dia a dia.

- Claro, fique à vontade.

Ele se sentou ao lado dela, apoiando-se sobre seus cotovelos e observando o céu. Ela olhou para ele por alguns instantes, ele estava reclinado e seu olhar fixo no imenso azul-escuro do céu que começava a ficar mais claro. Era intrigante como eles eram diferentes, ela como o mar, vezes calmo, vezes agitado, mas sempre ali, naquele mesmo ciclo, singelo e envolvente. Ele por sua vez era como o céu, a sensação de imensidão e liberdade eram o que o atraia, sempre parecendo distante e calmo, mas quando se conhece um pouco melhor, pode-se prever quando uma tempestade está por vir. Nesse pensamento aprofundado se passou algum tempo, até que ela se deu conta que o estava encarando, ela se sentiu um pouco constrangida e voltou sua atenção para as ondas. Então ele começou a falar:

- Não costumo te encontrar aqui sempre... Você só vem para cá quando algo está te incomodando... O que foi?

- Só estou um pouco perdida nos meus pensamentos... Você vai mesmo embora? Sabe que podia ficar mais, não é?

- Sim, sei... Mas acho que vai ser melhor assim... Não há muito mais que eu possa fazer nesse lugar... Ficar mais apenas faria com que a separação depois fosse mais difícil...

- Eu sei... Mas não queria que acabasse dessa forma... Eu gosto da sua companhia...

- Também gosto de estar aqui... Mas sabendo que em breve terei que ir, permanecer aqui só vai dificultar as coisas para mim... - Ele deixou de olhar para o alto, ajeitou-se com uma perna esticada sobre a pedra e a outra, flexionada, servia de apoio para o seu braço – Sua companhia também me faz muito bem... Mas também faz com que me apegue ainda mais a esse lugar... Querer desbravar esse mar... Mas isso não posso fazer...
- Nem tudo precisa de 0 ou 1, sim ou não, preto ou branco... As coisas mudam com o tempo, lugares, pessoas, sentimentos, opiniões, tudo muda... E foi você que me disse isso uma vez...

- Realmente eu disse... Mas o mar nunca vai aceitar um filho do céu... E um filho do céu não pode ficar muito tempo em um lugar... Senão ele vai querer fazer seu ninho ali... Mas o mar não vai deixar, as ondas virão e destruirão o ninho, não importa o que o filho do céu queira...

O sol despontava no horizonte, mas nenhum dos dois estavam prestando atenção. Se alguém olhasse de longe, veria apenas duas silhuetas contrastando a luz vinda do sol ao fundo.

- É mesmo tão ruim continuar aqui mesmo sem construir seu ninho?

- … - Ele olhou para ela com os olhos brilhando, e um sorriso frágil, não era comum vê-lo daquela forma – Eu preciso encontrar o meu lugar... Um lugar aonde eu possa me fixar, depois de voar o dia todo, um ninho para repousar, um lugar para onde eu possa voltar depois de um dia cansativo... - Ele piscou algumas vezes para afastar as lágrimas que enchiam seus olhos.

- … - Ela se sentiu deslocada com aquela cena. Quando ela tomou ar para falar alguma coisa, ele a interrompeu prontamente.

- E eu não sou o único correto? Todos queremos um lugar para chamarmos de lar... - E mesmo que eu saia daqui, ainda cruzaremos nosso caminhos, temos muito o que compartilhar ainda... E um dia quero que voe comigo... Vou te mostrar às belezas do céu... E qualquer dia você também tem que me mostrar os segredos do mar...

- Sim, é claro...

Nesse meio tempo o sol já estava longe do mar, e o céu antes escuro estava cada vez mais claro. Ele deu um sorriso de “vai ficar tudo bem” e acariciou a cabeça dela. Ele se levantou e aproximou-se dela, ela permanecia sentada observando o que ele faria. Ele então se ajoelhou atrás dela e a abraçou, as costas dela tocavam o peito dele, era aconchegante, e por um momento ela fechou os olhos para se concentrar nos outros sentidos... OLFATO, o perfume dele se misturava com o sal do mar, se confundindo no seu nariz. TATO, seus braços à envolviam na altura do tronco, era gosto, passava sensação de proteção, sua pele quentinha tocando a dela. AUDIÇÃO, apenas um leve murmurio incompreensível, quase que hipnotizante. Ao fim dum longo abraço ele se levantou, botou as mãos nos ombros dela e disse:

- Ei... - Ela prontamente ela olhou pra cima. Seu rosto fazia uma sutil sombra – Nos vemos por ai...

Dito isso ele beijou-a na testa, se virou e foi embora, pulando de pedra em pedra até ela perdê-lo de vista. No fim, ela estava novamente sozinha, como estava no inicio do dia, ainda mais confusa do que mais cedo, mas agora uma sensação quente estava em seu peito, as palavras dele apesar de confusa e metafóricas, ecoavam pela sua cabeça. Ela abraçou os joelhos e ficou ali, perdida em pensamentos, sem saber bem o que viria à seguir, rezando para estar preparada quando chegasse...


MENSAGEM: Não importa a quanto tempo uma pessoa entrou na sua vida, não importa se ela vai embora agora ou vai continuar com você pra sempre. O que realmente importa é o quão bem essa pessoa te fez, se ela te fez ser uma pessoa melhor, se ela te deu novos horizontes e perspectivas, se ela fez isso, cada momento valeu à pena... Valorize pessoas e experiencias, curta cada momento bom, para que no fim do dia, você possa olhar para tudo que fez e sentir-se realizado e satisfeito.

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