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quarta-feira, 18 de abril de 2018

Cinza

Lá estava ele, na varanda do seu apertado apartamento, olhando a paisagem cinzenta da cidade, arranha-céus se extendiam até aonde a vista podia alcançar, costurados por ruas infestadas de carros e pessoas. Levou a mão até o bolso e puxou um cigarro, acendeu-o e começou a divagar sobre como sua vida chegara aquele ponto. Infeliz, preso num trabalho massante, sem tempo para si mesmo e ainda assim estava acomodado demais para tomar uma atitude em relação aquilo, como se tivesse se tornado tão cinza e sem vida quanto a paisagem à sua frente. Ele saíra da sua cidade natal no interior para vir para a capital, na sua mala trazia esperanças e diversos sonhos, que hoje não passam de uma piada de mal gosto para sua alma exaurida.

O dia se tornava noite vagarosamente. No céu não se via estrela alguma, culpa das luzes e da poluição da cidade. Quando o cigarro estava quase no fim, ele terminou de apaga-lo no parapeito no qual estava recostado e adicionou mais uma bituca a tantas outras que se acumulavam em seu cinzeiro. Uma lufada de vento frio o atingiu subitamente, então ele resolveu entrar. O apartamento tinha apenas dois comodos distintos, a sala principal, aonde apenas um balcão separava a sala de estar da apertada cozinha, e o quarto, aonde mal cabia sua cama, o guarda roupas e uma escrivaninha na qual ele ficava o maior tempo enquanto estava em casa.

Ele ligou a TV e sentou-se preguiçosamente no sofá surrado de dois lugares, na TV o noticiário anunciava mais um assassinato brutal de uma jovem no subúrbio, mais um dia comum na capital. Ele se dirigiu até a cozinha e abriu a geladeira apenas uma garrafa d'água e restos que provavelmente o mandariam pro hospital caso ele ousasse come-los, ele esquecera totalmente que tinha que fazer compras hoje, ele resmungou alguns xingamentos e fechou a geladeira. Puxou o celular do bolso de trás da sua jeans e abriu o iFood, pra variar iria comer algo nada saudável novamente, cogitou pedir uma pizza pequena (que provavelmente ele esqueceria na geladeira se tornando uma adição ao seu cultivo de intoxicação alimentar). Por fim decidiu não pedir nada e se dirigiu para o quarto.

As paredes verde-água estavam infestadas de pôsteres, alguns até se sobrepunham, desde bandas de rock nacional, rappers gringos e até personagens de desenho animado japonês, era uma dissonância que dava um ar bizarro ao cômodo. Se jogou na cama de bruços, o cansaço da noite sem dormir começou a cobrar seu preço, ele sentia seu corpo mole e suas pálpebras pesadas, apesar de querer lutar contra o sono, era claro quem estava vencendo, ele soltou um suspiro exasperado e relaxou, sua mente mergulhou na escuridão do subconsciente, indo pra terra dos sonhos, aonde ele poderia escapar do cinza e ver as cores da Terra do Nunca.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Um conto sobre duas pessoas

O Wrong Night era um pequeno bar ao estilo norte americano, luzes amareladas, bancos redondos para os clientes se acomodavam junto ao longo balcão de madeira, atrás do mesmo o barman preparava e servia as bebidas enquanto o jazz de uma jukebox embalava noite à dentro.
Ela estava encostada no balcão, era por volta das onze da noite, quando ele chegou, cabelo bagunçado como sempre, vestia calça jeans, tênis de skatista e sua camisa preta com uma estampa de Cavaleiros do Zodíaco: Lost Canvas fazia com que ele quebrasse todo o clima que o lugar passava. Ela olhou pra ele e deu um breve suspiro de desaprovação.
- Tá atrasado... - Disse ela num tom indecifrável que podia ser qualquer coisa entre desprezo e melancolia.
- Desculpa, sabe como a vida de desenhista amador é complicada - Ele a comprimentou e já acenou para que o barman o servisse - É totalmente diferente de alguém bem sucedida igual você.
Ela não esboçou nenhuma reação ao comentário, apenas tomou mais um gole da sua bebida. Ele continuou a falar:
- Já fazem o que, uns 6, 7 anos que nos conhecemos?
- Nove...
- Quantos anos hein?
- Bem mais do que eu gostaria.... - Ela respondeu com uma certa frieza.
- Eu imagino - Ele se sentou do lado dela - Como o tempo passa não é mesmo?
- É...
- É incrível como estamos ligados a tanto tempo mas mesmo assim totalmente fora de sintonia...
- Não sei bem o que quer dizer com isso, mas deve ser...
- Ah, você sabe, sempre brigando e divergindo, seguindo caminhos conflitantes....

- Talvez seja o nosso destino, karma ou qualquer outra explicação sem fundamento que as pessoas usam para tirarem a culpa delas mesmas ao invés de encarar suas escolhas...
- Hahahaha... Parece que hoje seu humor não tá dos melhores.
- Não enche... - Ela tomou mais um gole da sua bebida - Por que você me fez vir até aqui no meio da semana mesmo?
Antes que ele respondesse o barman veio até eles e serviu ao rapaz um conhaque que ele sempre tomava quando iam naquele bar. O jovem bebericou o conhaque e deu um sorriso melancólico:
- Esse sabor me lembra de tempos mais simples, quando eu ainda tinha controle da minha vida... - Ele riu, talvez um riso de nervosismo ou desdém, mas definitivamente não era um riso de alegria - Estamos aqui pra comemorar sua promoção! Você vai embora em breve, não?
- Vou...
Depois de conviver com ele durante 9 anos, não era difícil notar que ele estava no limite. Ele sempre se fazia de inabalável, mas ela já havia visto ele uma vez quando surtara, e não era algo agradável:
- Então... Qual sua desculpa pelo atraso dessa vez?
- Tinha 30 páginas de um livro infantil para entregar hoje.
- Terminou?
- Não...
- Então porque você está aqui?!
- Os desenhos podem esperar... - Ele deu um grande gole no conhaque - Se eu desmarcasse hoje provavelmente não conseguiria te ver antes de você ir embora... Apesar de quase não nos vermos e termos nos desentendido, isso era necessário para nos desvincularmos de vez... Pelo menos pra mim era assim que devia ser....
- Você sempre foi dramático.
- Eu sei... - Ele deu um pequeno sorriso - Talvez seja mal de aspirantes à ilustrador...
- Não me venha com desculpas! Você é dramático e ponto.
Eles riram juntos, e o clima pesado logo se dissipou. Enquanto a noite avançava, mais eles bebiam, mas ele ficava bêbado bem mais rápido:
- Lembra do PC? Aquele maldito me importunou 2 anos depois daquilo!
- Acho é pouco! Você tem que sofrer mesmo. Pra virar homem!
E a noite ia vagarosamente avançando.
- Pior foi com o namorado da Green.
- Ele tava putasso com você. - E eu nem tinha feito algo pra ficarem bravos daquele jeito!
- Imagina se tivesse feito...
~~~
- Não esqueço da minha festa de formatura! Minha prima morrendo de ciúmes e você tão bonita... - Ele acenou a cabeça como se quisesse afastar um pensamento - Naquela noite... Cada coisa que eu nem acredito que aconteceu...
- Foi uma noite boa...
- Agora que lembrei. Você ainda tem aquela pelúcia de panda que te dei?
- Tenho....
Quando a noite estava chegando no fim e ambos já estavam bêbados, as histórias engraçadas deram lugar a histórias nostálgicas e melancólicas, como quando ela ia se mudar:
- Aquela vez que você queria se mudar foi mancada! Você avisou quando já não dava pra nos vermos.
- É melhor do que ter que te aguentar igual hoje hahahah
- ... É sério. Nem naquela época eu consegui ser totalmente sincero com o que eu queria... Devia ter dito "não quero que você vá, quero que você fique aqui comigo!" ou algo assim...
- Eu namorava! E a vida não é como num mangá que uma frase impactante redime todos os erros do passado...
- Mangás são legais...
- A vida não é tão fácil.
- No fim você acabou não indo mas você realmente me assustou...- Ele fez uma breve pausa - Acho que não estaria aqui se você não tivesse me incentivado a continuar desenhando...
- Hahahaha! Não vem jogar a culpa em mim não! Você se fudeu sozinho.
- Não é isso. To falando que se você não tivesse visto meus desenhos e me incentivado a continuar com aquilo, talvez hoje eu fosse uma assalariado com uma vida sem graça... Você me fez acreditar que eu era capaz e me deu coragem para continuar tentando... Tenho até hoje as cartas que voltavam com meus desenhos...- O tom dele misturava gratidão e melancolia.
- Que bom que ajudei...
Um momento de silêncio acompanhado de uma troca de olhares longa foi constrangedor:
- Ei!! Você devia ter dito algo do tipo "Ah, vc também fez a diferença na minha vida naquela vez..." me fez parecer bobo!
- Eu podia falar algo que você estragou na minha vida ou ficar quieta, escolhi a segunda opção - Ela deu um olhar penetrante como se tentasse ver a alma dele - Você sempre foi um babaca.
- Hahahahah... - O riso nervoso deu lugar a uma cara triste e distante - Eu sei... Demorei anos pra notar, mas agora eu sei... Perdão por tudo...
- Nem parece você...
- É sério. É pra isso que eu queria esse último encontro. Pra poder me desculpar e dar um adeus olhando nos seus... Eu sempre fui um babaca, primeiro porque deixava os outros me influenciarem e depois porque queria aparentar alguém que eu não era... Eu fugia de ser eu mesmo pra ser notado... Acho que ainda não resolvi todos os problemas que me tornam um babaca mas estou trabalhando neles, acredite, já perdi bem mais do que queria... Olha nem ligo de parecer um otakinho que sou na rua! Hahahahah - Era visível que ele tremia.
- ... Theus?
- Vamos embora?
Ele se levantou, tirou uma nota de 50 da carteira e colocou em baixo do copo vazio. Eles sairam do bar e pediran um taxi para ela, o frio da noite afastava e embriaguez,  o táxi chegou logo, então eles se despediram:
- Obrigado por tudo, desculpe os problemas que causei e se quiser, mantenha contato, eu to sempre por aqui... Tchau!
- Se cuida Theus... - Ela entrou no taxi.
- Desculpa não ter tido tempo de imprimir... Adio.
Ele pegou o celular e se afastou antes que ela pudesse perguntar qualquer coisa. O taxi saiu pelas ruas desertas quando o celular dela vibrou. Ela pegou o celular e notou uma nova mensagem dele, ela suspirou já imaginando que seria algo que ele não teve coragem de falar pessoalmente, mas quando abriu a mensagem era uma imagem, na verdade um desenho, um desenho que ele havia feito ela, não era perfeito mas era possível sentir o coração dele transbordando daquele retrato, ela deu um breve sorriso, sincero e singelo, estava confiante para seguir em frente.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Um conto à beira-mar

Era verão, ela caminhava na praia, o sol estava nascendo deixando o mar alaranjado. A areia branca sob seus pés estava fria ainda. Era um dia diferente, apreciando as ondas, depois retornaria para sua vida urbana, andando por entre os imensos arranha-céus. Ela caminhou por cerca de 15 minutos até chegar ao fim da areia e começarem os rochedos aonde as ondas quebravam. Foi saltando de uma pedra à outra, até que subiu em uma das pedras mais altas, aonde as ondas não à atingiam, apenas refrescantes respingos das ondas tocavam sua pele.

O céu estava cada vez mais claro, mas o sol ainda não podia ser visto, ela havia acordado bem cedo justamente para vê-lo nascer. Seus olhos estavam fixos nas ondas quebrando abaixo dela, e de repente, uma voz à tira de seus pensamentos distantes:

- Posso me juntar a você? - Era ele. Ele não estava com ela desde sua infância, quando chegou não causou muito impacto, mas depois de certos eventos ele se tornou uma parte do seu dia a dia.

- Claro, fique à vontade.

Ele se sentou ao lado dela, apoiando-se sobre seus cotovelos e observando o céu. Ela olhou para ele por alguns instantes, ele estava reclinado e seu olhar fixo no imenso azul-escuro do céu que começava a ficar mais claro. Era intrigante como eles eram diferentes, ela como o mar, vezes calmo, vezes agitado, mas sempre ali, naquele mesmo ciclo, singelo e envolvente. Ele por sua vez era como o céu, a sensação de imensidão e liberdade eram o que o atraia, sempre parecendo distante e calmo, mas quando se conhece um pouco melhor, pode-se prever quando uma tempestade está por vir. Nesse pensamento aprofundado se passou algum tempo, até que ela se deu conta que o estava encarando, ela se sentiu um pouco constrangida e voltou sua atenção para as ondas. Então ele começou a falar:

- Não costumo te encontrar aqui sempre... Você só vem para cá quando algo está te incomodando... O que foi?

- Só estou um pouco perdida nos meus pensamentos... Você vai mesmo embora? Sabe que podia ficar mais, não é?

- Sim, sei... Mas acho que vai ser melhor assim... Não há muito mais que eu possa fazer nesse lugar... Ficar mais apenas faria com que a separação depois fosse mais difícil...

- Eu sei... Mas não queria que acabasse dessa forma... Eu gosto da sua companhia...

- Também gosto de estar aqui... Mas sabendo que em breve terei que ir, permanecer aqui só vai dificultar as coisas para mim... - Ele deixou de olhar para o alto, ajeitou-se com uma perna esticada sobre a pedra e a outra, flexionada, servia de apoio para o seu braço – Sua companhia também me faz muito bem... Mas também faz com que me apegue ainda mais a esse lugar... Querer desbravar esse mar... Mas isso não posso fazer...
- Nem tudo precisa de 0 ou 1, sim ou não, preto ou branco... As coisas mudam com o tempo, lugares, pessoas, sentimentos, opiniões, tudo muda... E foi você que me disse isso uma vez...

- Realmente eu disse... Mas o mar nunca vai aceitar um filho do céu... E um filho do céu não pode ficar muito tempo em um lugar... Senão ele vai querer fazer seu ninho ali... Mas o mar não vai deixar, as ondas virão e destruirão o ninho, não importa o que o filho do céu queira...

O sol despontava no horizonte, mas nenhum dos dois estavam prestando atenção. Se alguém olhasse de longe, veria apenas duas silhuetas contrastando a luz vinda do sol ao fundo.

- É mesmo tão ruim continuar aqui mesmo sem construir seu ninho?

- … - Ele olhou para ela com os olhos brilhando, e um sorriso frágil, não era comum vê-lo daquela forma – Eu preciso encontrar o meu lugar... Um lugar aonde eu possa me fixar, depois de voar o dia todo, um ninho para repousar, um lugar para onde eu possa voltar depois de um dia cansativo... - Ele piscou algumas vezes para afastar as lágrimas que enchiam seus olhos.

- … - Ela se sentiu deslocada com aquela cena. Quando ela tomou ar para falar alguma coisa, ele a interrompeu prontamente.

- E eu não sou o único correto? Todos queremos um lugar para chamarmos de lar... - E mesmo que eu saia daqui, ainda cruzaremos nosso caminhos, temos muito o que compartilhar ainda... E um dia quero que voe comigo... Vou te mostrar às belezas do céu... E qualquer dia você também tem que me mostrar os segredos do mar...

- Sim, é claro...

Nesse meio tempo o sol já estava longe do mar, e o céu antes escuro estava cada vez mais claro. Ele deu um sorriso de “vai ficar tudo bem” e acariciou a cabeça dela. Ele se levantou e aproximou-se dela, ela permanecia sentada observando o que ele faria. Ele então se ajoelhou atrás dela e a abraçou, as costas dela tocavam o peito dele, era aconchegante, e por um momento ela fechou os olhos para se concentrar nos outros sentidos... OLFATO, o perfume dele se misturava com o sal do mar, se confundindo no seu nariz. TATO, seus braços à envolviam na altura do tronco, era gosto, passava sensação de proteção, sua pele quentinha tocando a dela. AUDIÇÃO, apenas um leve murmurio incompreensível, quase que hipnotizante. Ao fim dum longo abraço ele se levantou, botou as mãos nos ombros dela e disse:

- Ei... - Ela prontamente ela olhou pra cima. Seu rosto fazia uma sutil sombra – Nos vemos por ai...

Dito isso ele beijou-a na testa, se virou e foi embora, pulando de pedra em pedra até ela perdê-lo de vista. No fim, ela estava novamente sozinha, como estava no inicio do dia, ainda mais confusa do que mais cedo, mas agora uma sensação quente estava em seu peito, as palavras dele apesar de confusa e metafóricas, ecoavam pela sua cabeça. Ela abraçou os joelhos e ficou ali, perdida em pensamentos, sem saber bem o que viria à seguir, rezando para estar preparada quando chegasse...


MENSAGEM: Não importa a quanto tempo uma pessoa entrou na sua vida, não importa se ela vai embora agora ou vai continuar com você pra sempre. O que realmente importa é o quão bem essa pessoa te fez, se ela te fez ser uma pessoa melhor, se ela te deu novos horizontes e perspectivas, se ela fez isso, cada momento valeu à pena... Valorize pessoas e experiencias, curta cada momento bom, para que no fim do dia, você possa olhar para tudo que fez e sentir-se realizado e satisfeito.