segunda-feira, 16 de abril de 2018

Um conto sobre duas pessoas

O Wrong Night era um pequeno bar ao estilo norte americano, luzes amareladas, bancos redondos para os clientes se acomodavam junto ao longo balcão de madeira, atrás do mesmo o barman preparava e servia as bebidas enquanto o jazz de uma jukebox embalava noite à dentro.
Ela estava encostada no balcão, era por volta das onze da noite, quando ele chegou, cabelo bagunçado como sempre, vestia calça jeans, tênis de skatista e sua camisa preta com uma estampa de Cavaleiros do Zodíaco: Lost Canvas fazia com que ele quebrasse todo o clima que o lugar passava. Ela olhou pra ele e deu um breve suspiro de desaprovação.
- Tá atrasado... - Disse ela num tom indecifrável que podia ser qualquer coisa entre desprezo e melancolia.
- Desculpa, sabe como a vida de desenhista amador é complicada - Ele a comprimentou e já acenou para que o barman o servisse - É totalmente diferente de alguém bem sucedida igual você.
Ela não esboçou nenhuma reação ao comentário, apenas tomou mais um gole da sua bebida. Ele continuou a falar:
- Já fazem o que, uns 6, 7 anos que nos conhecemos?
- Nove...
- Quantos anos hein?
- Bem mais do que eu gostaria.... - Ela respondeu com uma certa frieza.
- Eu imagino - Ele se sentou do lado dela - Como o tempo passa não é mesmo?
- É...
- É incrível como estamos ligados a tanto tempo mas mesmo assim totalmente fora de sintonia...
- Não sei bem o que quer dizer com isso, mas deve ser...
- Ah, você sabe, sempre brigando e divergindo, seguindo caminhos conflitantes....

- Talvez seja o nosso destino, karma ou qualquer outra explicação sem fundamento que as pessoas usam para tirarem a culpa delas mesmas ao invés de encarar suas escolhas...
- Hahahaha... Parece que hoje seu humor não tá dos melhores.
- Não enche... - Ela tomou mais um gole da sua bebida - Por que você me fez vir até aqui no meio da semana mesmo?
Antes que ele respondesse o barman veio até eles e serviu ao rapaz um conhaque que ele sempre tomava quando iam naquele bar. O jovem bebericou o conhaque e deu um sorriso melancólico:
- Esse sabor me lembra de tempos mais simples, quando eu ainda tinha controle da minha vida... - Ele riu, talvez um riso de nervosismo ou desdém, mas definitivamente não era um riso de alegria - Estamos aqui pra comemorar sua promoção! Você vai embora em breve, não?
- Vou...
Depois de conviver com ele durante 9 anos, não era difícil notar que ele estava no limite. Ele sempre se fazia de inabalável, mas ela já havia visto ele uma vez quando surtara, e não era algo agradável:
- Então... Qual sua desculpa pelo atraso dessa vez?
- Tinha 30 páginas de um livro infantil para entregar hoje.
- Terminou?
- Não...
- Então porque você está aqui?!
- Os desenhos podem esperar... - Ele deu um grande gole no conhaque - Se eu desmarcasse hoje provavelmente não conseguiria te ver antes de você ir embora... Apesar de quase não nos vermos e termos nos desentendido, isso era necessário para nos desvincularmos de vez... Pelo menos pra mim era assim que devia ser....
- Você sempre foi dramático.
- Eu sei... - Ele deu um pequeno sorriso - Talvez seja mal de aspirantes à ilustrador...
- Não me venha com desculpas! Você é dramático e ponto.
Eles riram juntos, e o clima pesado logo se dissipou. Enquanto a noite avançava, mais eles bebiam, mas ele ficava bêbado bem mais rápido:
- Lembra do PC? Aquele maldito me importunou 2 anos depois daquilo!
- Acho é pouco! Você tem que sofrer mesmo. Pra virar homem!
E a noite ia vagarosamente avançando.
- Pior foi com o namorado da Green.
- Ele tava putasso com você. - E eu nem tinha feito algo pra ficarem bravos daquele jeito!
- Imagina se tivesse feito...
~~~
- Não esqueço da minha festa de formatura! Minha prima morrendo de ciúmes e você tão bonita... - Ele acenou a cabeça como se quisesse afastar um pensamento - Naquela noite... Cada coisa que eu nem acredito que aconteceu...
- Foi uma noite boa...
- Agora que lembrei. Você ainda tem aquela pelúcia de panda que te dei?
- Tenho....
Quando a noite estava chegando no fim e ambos já estavam bêbados, as histórias engraçadas deram lugar a histórias nostálgicas e melancólicas, como quando ela ia se mudar:
- Aquela vez que você queria se mudar foi mancada! Você avisou quando já não dava pra nos vermos.
- É melhor do que ter que te aguentar igual hoje hahahah
- ... É sério. Nem naquela época eu consegui ser totalmente sincero com o que eu queria... Devia ter dito "não quero que você vá, quero que você fique aqui comigo!" ou algo assim...
- Eu namorava! E a vida não é como num mangá que uma frase impactante redime todos os erros do passado...
- Mangás são legais...
- A vida não é tão fácil.
- No fim você acabou não indo mas você realmente me assustou...- Ele fez uma breve pausa - Acho que não estaria aqui se você não tivesse me incentivado a continuar desenhando...
- Hahahaha! Não vem jogar a culpa em mim não! Você se fudeu sozinho.
- Não é isso. To falando que se você não tivesse visto meus desenhos e me incentivado a continuar com aquilo, talvez hoje eu fosse uma assalariado com uma vida sem graça... Você me fez acreditar que eu era capaz e me deu coragem para continuar tentando... Tenho até hoje as cartas que voltavam com meus desenhos...- O tom dele misturava gratidão e melancolia.
- Que bom que ajudei...
Um momento de silêncio acompanhado de uma troca de olhares longa foi constrangedor:
- Ei!! Você devia ter dito algo do tipo "Ah, vc também fez a diferença na minha vida naquela vez..." me fez parecer bobo!
- Eu podia falar algo que você estragou na minha vida ou ficar quieta, escolhi a segunda opção - Ela deu um olhar penetrante como se tentasse ver a alma dele - Você sempre foi um babaca.
- Hahahahah... - O riso nervoso deu lugar a uma cara triste e distante - Eu sei... Demorei anos pra notar, mas agora eu sei... Perdão por tudo...
- Nem parece você...
- É sério. É pra isso que eu queria esse último encontro. Pra poder me desculpar e dar um adeus olhando nos seus... Eu sempre fui um babaca, primeiro porque deixava os outros me influenciarem e depois porque queria aparentar alguém que eu não era... Eu fugia de ser eu mesmo pra ser notado... Acho que ainda não resolvi todos os problemas que me tornam um babaca mas estou trabalhando neles, acredite, já perdi bem mais do que queria... Olha nem ligo de parecer um otakinho que sou na rua! Hahahahah - Era visível que ele tremia.
- ... Theus?
- Vamos embora?
Ele se levantou, tirou uma nota de 50 da carteira e colocou em baixo do copo vazio. Eles sairam do bar e pediran um taxi para ela, o frio da noite afastava e embriaguez,  o táxi chegou logo, então eles se despediram:
- Obrigado por tudo, desculpe os problemas que causei e se quiser, mantenha contato, eu to sempre por aqui... Tchau!
- Se cuida Theus... - Ela entrou no taxi.
- Desculpa não ter tido tempo de imprimir... Adio.
Ele pegou o celular e se afastou antes que ela pudesse perguntar qualquer coisa. O taxi saiu pelas ruas desertas quando o celular dela vibrou. Ela pegou o celular e notou uma nova mensagem dele, ela suspirou já imaginando que seria algo que ele não teve coragem de falar pessoalmente, mas quando abriu a mensagem era uma imagem, na verdade um desenho, um desenho que ele havia feito ela, não era perfeito mas era possível sentir o coração dele transbordando daquele retrato, ela deu um breve sorriso, sincero e singelo, estava confiante para seguir em frente.

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